Foto: Band Bahia

Os contornos de Cocá, Rui e Jequié

Saiu do campo da política a batalha travada pelo governador Rui Costa (PT) contra o prefeito de Jequié, Zé Cocá (PP), o também presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB). A briga, antes velada, ganhou novos ares e descamba para uma seara pessoal em proporções significativas ao ponto de Rui chorar na cidade de Lafaiete Coutinho. Soou em tom de desabafo o seu recente discurso ao mandar vários recados ao antigo aliado, mesmo sem citá-lo.

“Isso não é política. Isso é humanidade. Isso é respeito ao ser humano. Como é que alguém pode se dizer que é amigo de outro e deixar a pessoa em pé em uma barraca, mentindo (…). Fiquei noites e noites conversando com minha esposa, dizendo ‘não é possível um negócio desses’. Minha mãe dizia que você conhece as pessoas com o tempo. Só o tempo mostra o caráter das pessoas”, afirmou na cidade a qual Cocá havia sido prefeito.

Vejamos: o pepista, então deputado estadual, venceu o pleito de 2020 em cima de pau e pedra das brigas travadas por Rui Costa e aliados com o intuito de impulsioná-lo, além de também ter ganhado a simpatia da filha ilustre da terra, a primeira-dama Aline Peixoto. Uma combinação perfeita e de estratégia administrativa na busca do desenvolvimento do município com um modelo padrão de investimentos. Foram várias as ações empreendidas pelo Estado no município em meio a ciumeira dos demais prefeitos.

A eleição da UPB foi a cereja do bolo de uma relação até então tranquila. Contudo, Cocá, conforme alguns mais chegados, sempre deixou clara a sua posição partidária de ser do PP e ter em João Leão (PP) a figura do líder político.

No racha do PP com a base, Rui esperou Cocá ao seu lado, mas não foi o acontecido. O pepista também rachou. A demonstração soou tamanha, que na coletiva de anúncio da adesão de Leão ao grupo de Neto, ele esteve no palco principal, em destaque, ao lado do prefeito de Salvador, Bruno Reis (UB).

Novos contornos dessa briga surgiram nesta semana após uma lista atribuída pelo governador como falsa constar a relação de vários convênios com prefeituras cancelados por parte do governo. Cocá virou protagonista, após ter sido procurado pelos prefeitos queixosos. A base de Rui subiu o tom: “O presidente da UPB está fazendo fake news no estado dizendo que vários convênios da Conder foram cancelados na Bahia. É mentira”, disse Luiz Caetano da Serin.

Para além do protagonismo atual do município no noticiário eleitoral, Jequié carrega um sentimento emblemático na história política da Bahia. Em 1911, por exemplo, o então Presidente da Assembleia Legislativa da Bahia, Aurélio Rodrigues Viana que, assumindo o governo daquele ano, decretou a mudança da capital do Estado de Salvador para Jequié, ocasionando imediata reação do governo Federal com um bombardeio no solo soteropolitano, conforme narra Silvio Batalha no livro Cartilha Histórica da Bahia. Dois ex-governadores e ex-senadores baianos também foram de lá: Lomanto Júnior – derrubou Waldir Pires na eleição de 1962 – e César Borges – ascendeu à vaga de candidato em 1998 por causa da morte de Luís Eduardo Magalhães.

Uma vitrine e tanta para Cocá. Rui tem buscado contra atacar ao colocar pré-candidatos a deputados estaduais e federais nas redondezas para diminuir qualquer poder de interferência do prefeito; realizou ao lado de Jerônimo Rodrigues (PT) uma vistosa edição do Programa de Governo Participativo (PGP) com o apoio da vice que é do PT e, creio, não medirá esforços, independente do resultado do pleito de Ondina, para derrubar o pepista do Executivo da cidade em 2024. Resta saber se continuará tendo força para tal.

  • Victor Pinto é jornalista formado pela Ufba; especialista em gestão de empresas em radiodifusão e estudante de Direito da UCSAL. Atualmente é comentarista de política e apresentador na Band Bahia e BandNews FM. Também é colunista do Band Notícias BA e do jornal Tribuna da Bahia. Twitter/Instagram: @victordojornal