O drama do Vitória escancara um problema sério do futebol brasileiro

Neste domingo (7), o Vitória visita o Mirassol sedento pelos três pontos. Se tropeçar, estará virtualmente desclassificado da Série C do Brasileirão e fadado a encerrar sua temporada no dia 13 de agosto, contra o Brasil de Pelotas, no Barradão – desconsiderando os 3 possíveis jogos da pré-Copa do Nordeste, que será realizada no último trimestre, ainda sem data definida.

Com mais de 200 milhões de reais em dívidas (e um faturamento de apenas 59 milhões), o Leão sofrerá um duro golpe esportivo e financeiro caso o fim precoce da temporada venha a se confirmar. Serão cerca de cinco meses praticamente sem calendário, algo inédito na história recente do clube.

Isso porque o rubro-negro está acostumado a disputar as Séries A e B do Brasileirão, onde o calendário volumoso de 38 rodadas preenche bem o ano e evita esses longos recessos, tão danosos ao planejamento dos clubes. A falta de jogos para disputar é um drama de todas equipes das Séries C e D – e, principalmente, dos times sem divisão nacional – pois isso traz muitas consequências fora de campo.

Quanto mais jogos a disputar no campeonato, mais generoso é o faturamento com os direitos de transmissão,  que compõem, muitas vezes, a metade do orçamento anual dos clubes no futebol brasileiro. Da primeira para a segunda divisão, a queda dessa receita já é expressiva, mesmo com a manutenção dos 38 jogos. Já da Série B para a terceira divisão, o impacto é alarmante. Muito desse desprestígio se deve ao calendário reduzido, com apenas 19 jogos garantidos e outros 8 possíveis, em caso de classificação à final.

Praticamente sem direitos de transmissão, o lucro com bilheteria se torna ainda mais relevante. No entanto, o calendário menor automaticamente gera menos partidas diante de seu torcedor. Quem cai da segunda para a terceira divisão, como o Vitória, deixa de ter 19 jogos garantidos como mandante para apenas nove. Além de que, naturalmente, são jogos de menor apelo. Não por acaso, a média de público pagante da terceira divisão, hoje, não alcança três mil pessoas – mesmo com a disputa animada por uma vaga na próxima fase.

Para evitar fenômenos como esse, um artifício muito comum é utilizado mundo afora. Você já ouviu falar na “pirâmide do futebol nacional”? Essa é uma expressão importada que representa o inchaço dos campeonatos à medida que descemos de divisão. Por exemplo, na Inglaterra somente a elite tem 20 clubes. Da segunda à quarta divisão, são 24 participantes. A Espanha tem um cenário semelhante. Ou seja, o topo é mais enxuto e vai ficando mais largo até chegar na base, como uma pirâmide.

Por aqui, mantemos os 20 clubes da primeira à terceira divisão, entupindo a Série D com 64 clubes em busca de míseras quatro vagas. Um bônus desequilibrado para um campeonato já pouco atraente.

Quatro das cinco principais ligas europeias oferecem uma Série B mais longa que a elite de seus campeonatos nacionais, justamente para evitar hiatos nos calendários dos clubes, os mantendo operantes, sob o olhar da mídia e financeiramente viáveis. O Brasil precisa fazer um esforço nesse sentido. Equipes das divisões de acesso não têm torneio continental para disputar e costumam cair mais cedo na Copa do Brasil, por isso, podem ter mais que 38 rodadas.

Não dá para a Série D, sozinha, ter mais clubes que as três principais divisões do país juntas. Não dá para a Série D não promover a manutenção de clube algum. Uma revisão da pirâmide nacional é urgente. Tanto para evitar a implosão de grandes camisas, como Vitória, Santa Cruz e Paraná, como para possibilitar o crescimento dos bons projetos, como Ferroviária e Red Bull Brasil – que mesmo com o investimento da fabricante de energéticos nunca conseguiu sair da Série D.

Costumo dizer que a Série D é um pântano, tamanha a dificuldade para sair de lá. Um pântano feito a imagem e semelhança de seu criador.

  • William Tales Silva, Jornalista. Repórter de esportes da TV Band Bahia. Autor do livro “[VAR] – A história e os impactos da maior mudança na aplicação das regras do futebol”, o primeiro sobre o árbitro de vídeo no Brasil, pela editora Footbooks/Corner. Já foi apresentador do Jogo Aberto da BandNews FM Salvador e teve oportunidades como apresentador do Jogo Aberto Bahia e comentarista da Série C do Brasileirão na TV Band Bahia.