Foto: Cesar Greco / Palmeiras

O domínio brasileiro na América do Sul

Na noite desta quinta-feira foi concluída a “primeira perna” das oitavas de final da Libertadores e da Copa Sul-Americana, que serviu para destacar, mais uma vez, o domínio do Brasil no continente. No início da temporada sul-americana, 15 equipes brasileiras estavam divididas entre os dois principais torneios da Conmebol. Ao fim da fase de grupos, quatro delas deram adeus às disputas – Bragantino e América caíram na Libertadores e, na Sul-Americana, Cuiabá e Fluminense foram eliminados.

Com 11 representantes nas oitavas de final, o Brasil teve 57% de aproveitamento nesses jogos de ida. Foram cinco vitórias, quatro empates e apenas duas derrotas. Para efeito de comparação, essas mesmas duas derrotas foram registradas pelos brasileiros nos jogos de ida das oitavas dos dois torneios há dez anos, quando apenas sete equipes do país estavam no mata-mata.

Os cinco brasileiros que venceram nesse primeiro jogo das oitavas de final (Athletico-PR, Palmeiras, Flamengo, São Paulo e Ceará) já parecem ter encaminhado a classificação. Dentre os cinco, apenas o Furacão jogou dentro de casa e, justamente por isso, é o que menos dedos colocou na vaga até agora. 

Entre os quatro que empataram, podemos ressaltar a situação tranquila de Atlético Mineiro e Santos, que farão o jogo da volta em casa, contra adversários mais frágeis tecnicamente. Prováveis classificados. Já Corinthians e Fortaleza tem o que temer. O alvinegro precisa vencer o Boca Juniors em La Bombonera, onde apenas empatou na fase de grupos, enquanto o Leão do Pici tem que buscar o resultado na Argentina contra o Estudiantes.

As duas únicas derrotas vieram na Copa Sul-Americana, em jogos disputados fora de casa. O Atlético Goianiense perdeu por 2 a 0 para o Olimpia, no Paraguai, e tem uma tarefa árdua para o jogo da volta no Antônio Accioly. Cotado como favorito ao título, o Internacional foi o segundo derrotado, também por 2 a 0, contra o Colo Colo, no Chile. Um placar reversível no Beira Rio.

Dentre os onze brasileiros, apenas Fortaleza e Atlético Goianiense me passam insegurança o suficiente para apostar em uma eliminação. Corinthians e Internacional são plenamente capazes de reverter as situações complicadas em que se meteram, enquanto todos outros sete brasileiros entram como favoritos nos jogos de volta das oitavas de final.

Ou seja, das dezesseis equipes que irão compor as quartas de final da Libertadores e da Sul-Americana, pelo menos sete devem ser brasileiras. Em 2021, foram oito. Um número que pode ser facilmente repetido nesta temporada.

Um cenário que, olhando por nossa perspectiva, é digno de festa. Enfim, o futebol brasileiro conseguiu transformar seu maior potencial financeiro e técnico em resultados na América do Sul. Porém, em um cenário mais amplo, chega a ser entediante notar que a Libertadores e a Copa Sul-Americana se tornaram novas versões da Copa do Brasil, com uma ou outra equipe latina de penetra.

Os clubes brasileiros devem trabalhar para manter essa força, mas a Conmebol precisa, urgentemente, encontrar meios para trazer o futebol do continente a este mesmo nível competitivo. O futebol argentino ainda nos incomoda dentro de campo, mas escolas tradicionais como Colômbia e Uruguai já não suscitam preocupação – tampouco os outros países menos renomados no esporte.

Assim como em 2012, tudo indica que os troféus da Libertadores e da Sul-Americana virão para o Brasil. Mas, diferentemente do ano em que Corinthians e São Paulo mandaram no continente, essa dobradinha brasileira não causa mais espanto. Muito pelo contrário. Caminha para se tornar um hábito preocupante e, até o momento, sem solução à vista.

Foto: Lucas Figueiredo / CBF

Grupo G: como foram os adversários do Brasil nessa Data FIFA?

Ainda faltam cinco meses para a Copa do Mundo do Catar, mas a preparação das seleções já está na reta final. A Data FIFA encerrada nesta semana foi o penúltimo intervalo dedicado às seleções antes que elas se reúnam para o Mundial, em novembro. Embora o Brasil tenha feito apenas duas partidas, contra Coréia do Sul e Japão, vencendo ambas, essa janela internacional permitia quatro jogos e os países europeus aproveitaram esse encontro mais dilatado para dar o pontapé inicial para a Liga das Nações de 2022/23.

Começando pela Sérvia, que encara a seleção brasileira logo na estreia e disputa a “Série B” da Liga das Nações, sendo a única seleção classificada à Copa do Mundo na sua chave, ao lado de Eslovênia, Noruega e Suécia, e, por isso, favorita à promoção. No entanto, a águia conquistou apenas sete dos 12 pontos que disputou e amarga a vice-liderança do grupo, três pontos abaixo da Noruega.

Nessa Data FIFA, a Sérvia se destacou pelo controle de jogo, tendo mais posse de bola em todas as partidas – com média de 60%. Porém, é importante ressaltar que o nível de enfrentamento da Copa é diferente da “Série B” da Liga das Nações, então a Sérvia deve ter uma postura mais amena no Catar. Com esse domínio da bola, a equipe conseguiu uma eficácia ofensiva interessante, marcando um gol a cada 0,79 gols esperados*. Já a defesa não ajudou muito, levando um gol a cada 0,87 gols esperados.

É possível notar o equilíbrio da seleção sérvia, que não tem grandes estrelas, mas tem um coletivo bem encaixado, que pode impor dificuldades ao Brasil – ainda mais se considerarmos o nervosismo da estreia. Ouso dizer que só não estão na liderança de sua chave na Nations League porque o “Cometa” Haaland guardou cinco gols nesses quatro jogos e alavancou a Noruega ao primeiro lugar.

A Suíça, por sua vez, luta para não ser rebaixada no Grupo Dois, onde é lanterna, abaixo de Espanha, Portugal e República Tcheca. Com apenas uma vitória até aqui, o time foi econômico na criação, com apenas 4,04 gols esperados em quatro jogos e somente dois marcados. Ou seja, a equipe precisa produzir o suficiente para marcar dois gols para que realmente consiga fazer um. E isso é bem complicado para a seleção que teve o 4º menor número de finalizações certas da primeira divisão da Nations League, com apenas 11. A Suíça ainda é a seleção que menos dribla (7), segunda com mais perdas de bola (103) e sétima que menos troca passes certos (1301).

A defesa também vai mal. É a terceira mais vazada, com sete gols, mesmo tendo cedido oportunidades apenas para 5,13, gerando uma média preocupante de um gol sofrido a cada 0,73 gols esperados. Isso é ainda mais alarmante quando se nota que a Suíça é a seleção que mais sofreu finalizações certas (26) e a mais faltosa (28) da primeira divisão da Nations League. Tantos números negativos colocam a equipe como a dona da pior performance do campeonato até aqui, segundo o índice do site Footstats, que avalia o desempenho coletivo dos times.

Já a seleção de Camarões, assim como o Brasil, não aproveitou essa Data FIFA em sua totalidade. Estavam previstos dois jogos pelas eliminatórias da Copa Africana de Nações de 2023, mas a partida contra o Quênia foi cancelada e, por isso, os Leões jogaram apenas contra Burundi, vencendo por 1 a 0, com um gol de falta de Toko-Ekambi. Um repertório insuficiente para uma análise mais aprofundada sobre desempenho.

O Brasil segue como favorito na chave. Encarar o ferrolho japonês foi um importante teste e a seleção conseguiu a vitória, além de ter goleado uma Coréia do Sul fragilizada. De momento, a Sérvia parece oferecer mais perigo que a Suíça, mas a seleção da cruz vermelha ainda não deve ser descartada da briga pelo segundo lugar. Já Camarões aparece como “quarta força”, até pela dramática classificação à Copa, mas é capaz de arrancar pontos no Catar e tentar surpreender. Falta pouco tempo para ajustes. A Copa do Mundo é logo ali.

* A análise de Gols Esperados, também conhecida como xG, avalia a probabilidade de que determinada finalização resulte em gol. Para isso, são observados o local do chute, o tipo de ataque e do passe, além da parte do corpo responsável pela finalização.

Foto: ITV Football

Mbappé e o equilíbrio do futebol de seleções

A zebra estava solta nessa semana no futebol de seleções e gerou questionamentos sobre quais países são, de fato, favoritos ao título da Copa do Mundo. Mas, antes de ir direto ao assunto, desejo a todos boas-vindas. Esse é o primeiro texto da coluna Bom de Bola, um espaço para explorarmos diferentes vertentes do futebol. Desde os assuntos que passaram batido no noticiário da semana até os temas mais relevantes do momento, como essa data FIFA.

Após assinar um novo contrato com o PSG, o atacante Mbappé deu uma entrevista à TNT Sports e chamou atenção do público sul-americano ao afirmar que: “a Argentina e o Brasil não jogam partidas de muito nível antes da Copa do Mundo. Na América do Sul, o futebol não é tão avançado quanto na Europa. E é por isso que, quando você olha para as últimas Copas, são sempre os europeus que ganham”. Se analisarmos o depoimento friamente, o craque francês pode até não estar inteiramente equivocado, mas a soberba escondida nessa fala cobrou seu preço. Afinal, o futebol é tinhoso.

Como se fosse uma pegadinha do destino, o futebol europeu teve uma semana de tropeços inesperados. Apenas na Liga das Nações, sete zebras passearam. A Áustria, que está fora da Copa do Mundo, bateu a vice-campeã mundial Croácia por 3 a 0. A República Tcheca, também eliminada, derrotou a Suíça (rival do Brasil no grupo da Copa) por 2 a 1 e arrancou um empate por 2 a 2 contra a Espanha. A Sérvia (que encara o Brasil na estreia do mundial) foi derrotada em casa pela Noruega por 1 a 0. A Inglaterra, que aparece entre as favoritas ao título no Catar, perdeu por 1 a 0 para a Hungria, que também não vai à Copa. A Bélgica, que nos eliminou no mundial passado, foi amassada pela Holanda por 4 a 1. Sem contar a própria França de Mbappé, atual campeã da Copa e da Liga das Nações, que perdeu por 2 a 1 para a Dinamarca – confronto que vai se repetir na 2ª rodada do Grupo D da Copa.

Além disso, vale citar o atropelo da Argentina sobre a Itália na Finalíssima, a recém-criada supercopa entre os campeões da Copa América e da Eurocopa. Três a zero, fora o baile. Essa mesma Itália, que não vai ao Catar, ainda arrancou um empate da “sempre favorita” Alemanha na Liga das Nações. Já a Argentina encarou a Estônia em um amistoso e venceu por 5 a 0, com cinco gols de Messi, o que permite o questionamento sobre como estaria a artilharia histórica do futebol de seleções caso o ex-blaugrana tivesse encontros regulares com equipes deste patamar, que tanto engordaram a contagem de Cristiano Ronaldo, atual líder da estatística com folga.

Por um lado, esses jogos podem até reforçar o discurso de Mbappé, ao apontar o equilíbrio do futebol europeu, mas, sob outra perspectiva, expõem fragilidades de candidatos ao título mundial. Esses tropeços não descredenciam favoritos, mas o olhar europeu passa a impressão de que mesmo as vitórias sul-americanas sobre países de segunda e terceira prateleira geram esse efeito. Áustria, República Tcheca e Hungria não oferecem desafios maiores que Colômbia, Equador e Peru, mas o eurocentrismo, às vezes, nos impede de enxergar isso.