O drama do Vitória escancara um problema sério do futebol brasileiro

Neste domingo (7), o Vitória visita o Mirassol sedento pelos três pontos. Se tropeçar, estará virtualmente desclassificado da Série C do Brasileirão e fadado a encerrar sua temporada no dia 13 de agosto, contra o Brasil de Pelotas, no Barradão – desconsiderando os 3 possíveis jogos da pré-Copa do Nordeste, que será realizada no último trimestre, ainda sem data definida.

Com mais de 200 milhões de reais em dívidas (e um faturamento de apenas 59 milhões), o Leão sofrerá um duro golpe esportivo e financeiro caso o fim precoce da temporada venha a se confirmar. Serão cerca de cinco meses praticamente sem calendário, algo inédito na história recente do clube.

Isso porque o rubro-negro está acostumado a disputar as Séries A e B do Brasileirão, onde o calendário volumoso de 38 rodadas preenche bem o ano e evita esses longos recessos, tão danosos ao planejamento dos clubes. A falta de jogos para disputar é um drama de todas equipes das Séries C e D – e, principalmente, dos times sem divisão nacional – pois isso traz muitas consequências fora de campo.

Quanto mais jogos a disputar no campeonato, mais generoso é o faturamento com os direitos de transmissão,  que compõem, muitas vezes, a metade do orçamento anual dos clubes no futebol brasileiro. Da primeira para a segunda divisão, a queda dessa receita já é expressiva, mesmo com a manutenção dos 38 jogos. Já da Série B para a terceira divisão, o impacto é alarmante. Muito desse desprestígio se deve ao calendário reduzido, com apenas 19 jogos garantidos e outros 8 possíveis, em caso de classificação à final.

Praticamente sem direitos de transmissão, o lucro com bilheteria se torna ainda mais relevante. No entanto, o calendário menor automaticamente gera menos partidas diante de seu torcedor. Quem cai da segunda para a terceira divisão, como o Vitória, deixa de ter 19 jogos garantidos como mandante para apenas nove. Além de que, naturalmente, são jogos de menor apelo. Não por acaso, a média de público pagante da terceira divisão, hoje, não alcança três mil pessoas – mesmo com a disputa animada por uma vaga na próxima fase.

Para evitar fenômenos como esse, um artifício muito comum é utilizado mundo afora. Você já ouviu falar na “pirâmide do futebol nacional”? Essa é uma expressão importada que representa o inchaço dos campeonatos à medida que descemos de divisão. Por exemplo, na Inglaterra somente a elite tem 20 clubes. Da segunda à quarta divisão, são 24 participantes. A Espanha tem um cenário semelhante. Ou seja, o topo é mais enxuto e vai ficando mais largo até chegar na base, como uma pirâmide.

Por aqui, mantemos os 20 clubes da primeira à terceira divisão, entupindo a Série D com 64 clubes em busca de míseras quatro vagas. Um bônus desequilibrado para um campeonato já pouco atraente.

Quatro das cinco principais ligas europeias oferecem uma Série B mais longa que a elite de seus campeonatos nacionais, justamente para evitar hiatos nos calendários dos clubes, os mantendo operantes, sob o olhar da mídia e financeiramente viáveis. O Brasil precisa fazer um esforço nesse sentido. Equipes das divisões de acesso não têm torneio continental para disputar e costumam cair mais cedo na Copa do Brasil, por isso, podem ter mais que 38 rodadas.

Não dá para a Série D, sozinha, ter mais clubes que as três principais divisões do país juntas. Não dá para a Série D não promover a manutenção de clube algum. Uma revisão da pirâmide nacional é urgente. Tanto para evitar a implosão de grandes camisas, como Vitória, Santa Cruz e Paraná, como para possibilitar o crescimento dos bons projetos, como Ferroviária e Red Bull Brasil – que mesmo com o investimento da fabricante de energéticos nunca conseguiu sair da Série D.

Costumo dizer que a Série D é um pântano, tamanha a dificuldade para sair de lá. Um pântano feito a imagem e semelhança de seu criador.

  • William Tales Silva, Jornalista. Repórter de esportes da TV Band Bahia. Autor do livro “[VAR] – A história e os impactos da maior mudança na aplicação das regras do futebol”, o primeiro sobre o árbitro de vídeo no Brasil, pela editora Footbooks/Corner. Já foi apresentador do Jogo Aberto da BandNews FM Salvador e teve oportunidades como apresentador do Jogo Aberto Bahia e comentarista da Série C do Brasileirão na TV Band Bahia.
Foto: Felipe Oliveira / E.C. Bahia

A maior Série B da história é um fiasco?

Dezenove rodadas se passaram na Série B do Brasileirão e a impressão geral é de que os quatro promovidos à elite já estão definidos. Cruzeiro, Vasco, Bahia e Grêmio formam o G4 da competição, que está cinco pontos acima do Tombense, quinto colocado. A falta de competitividade na luta pelo acesso decepciona quem esperava uma disputa acirrada na maior Série B de todos os tempos. Os vinte participantes do campeonato somam 14 títulos do Brasileirão, 14 da Copa do Brasil e seis da Libertadores. Algo nunca antes visto na segunda divisão. Porém, alguns elementos explicam o letárgico enredo que se desenha na edição mais aguardada da história da Série B. A começar pelo mau desempenho de todos outros clubes que tinham potencial para ameaçar a folga do atual G4.

O Sport, principal candidato, até largou bem na disputa, mas venceu apenas uma vez nas últimas nove rodadas e caiu para o sexto lugar. Campeã em 2020 e promovida de imediato em 2013, a Chapecoense chegou à segunda divisão com o peso de uma especialista na disputa, mas amarga o 13º lugar, com somente dois pontos de folga para a zona de rebaixamento. Logo abaixo, está a Ponte Preta. Rebaixada no Paulistão deste ano, a Macaca já entrou na competição sob desconfiança e fez valer todo o ceticismo. Com seis jogos de invencibilidade no fim do turno, a equipe sonha com uma reação para ao menos fugir da luta contra a degola. 

No Z4 estão CSA, Náutico, Guarani e Vila Nova. Com exceção da equipe goiana, todos outros três eram cotados para a primeira página da tabela. Quinto colocado em 2020 e em 2021, o CSA vive uma derrocada espantosa. Campeão pernambucano e candidato ao acesso no ano passado, o Náutico veio com menor expectativa à disputa neste ano, mas está surpreendendo na irregularidade. Já o Guarani, sexto colocado da edição passada, fez boa campanha no Paulista e entrou na Série B como candidato ao acesso, mas conseguiu se atrapalhar logo cedo com as trocas no comando técnico.

Desta forma, sobram para a primeira página da tabela equipes com pouco gás para brigar com um G4 que pontua mais que a média histórica até a virada do turno. Além disso, do quinto ao décimo sexto colocado, todos estão pontuando menos que a média histórica das suas posições.

Como se não bastasse o desequilíbrio do G4 diante do restante da Série B, o nível técnico das partidas também não empolga. Com 1,79 gols por jogo, a edição tem a pior média de gols da história da Série B de pontos corridos. O excesso de empates também impressiona. São 69 em 190 jogos, o que representa mais de um terço dos jogos disputados. Destes, 32 foram por 0 a 0. Até aqui, a frustração é inevitável.

Mas nem tudo está perdido. Há todo um segundo turno pela frente. Com o panorama que temos hoje em mãos, temos pelo menos duas boas notícias para dar. A primeira é que com tantas camisas tradicionais cambaleando na tabela, é bem capaz de termos uma briga interessante contra o rebaixamento na reta final. E a segunda é que, por toda a expectativa criada, é difícil piorar.

  • William Tales Silva, Jornalista. Repórter de esportes da TV Band Bahia. Autor do livro “[VAR] – A história e os impactos da maior mudança na aplicação das regras do futebol”, o primeiro sobre o árbitro de vídeo no Brasil, pela editora Footbooks/Corner. Já foi apresentador do Jogo Aberto da BandNews FM Salvador e teve oportunidades como apresentador do Jogo Aberto Bahia e comentarista da Série C do Brasileirão na TV Band Bahia.
Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net

Oitavas da Copa do Brasil convidam o Brasileirão a refletir

Estão definidos os oito classificados para as quartas de final da Copa do Brasil. Após dez temporadas, essa fase da competição volta a ter três equipes de estados de fora do eixo (Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo). Na última vez que isso aconteceu, em 2012, cinco dos oito classificados cumpriam essa regra. Como dizem por aí: é a competição mais democrática do Brasil. Normalmente, esse lema é dito à revelia, ancorado em um histórico de zebras que hoje sobrevive apenas nos baús do esporte. 

Porém, desta vez, a máxima é legítima. E há um motivo para isso. Por preciosismo do sorteio, dos oito confrontos das oitavas de final, quatro eram clássicos estaduais e um outro era uma baita rivalidade regional. Com esses cruzamentos, um cearense e um goiano já estavam garantidos na próxima fase. Fortaleza e Atlético-GO ocuparam essas vagas. Bahia e Athletico Paranaense brigaram pela terceira vaga como “penetra” e o Furacão levou a melhor. Com um chaveamento como estes, a expectativa foi uma das maiores já vistas para essa fase da Copa do Brasil, e o torneio entregou tudo que se esperava – ou mais. Teve goleada, equilíbrio, zebra, disputa de pênaltis, festa das torcidas, recorde de público e tudo mais que se espera de uma rodada de clássicos. 

Esse é o ponto. A rodada de clássicos. A reunião de tantos confrontos importantes numa só fase engrossou os contornos já decisivos dessas oitavas de final. O fator mata-mata por si só já exige a atenção de uma decisão, mas ter do outro lado do campo um rival triplica esse aspecto. Por isso, sou a favor do retorno da 38ª rodada de clássicos no Brasileirão. Esse calendário diferenciado durou apenas de 2011 a 2012. A mudança foi adotada após Internacional e Corinthians se queixarem de que seus rivais teriam feito “corpo mole” no fim das edições de 2009 e 2010, respectivamente, os prejudicando na disputa do título.

Nesses dois anos, o Brasileirão viu grandes histórias serem escritas na 38ª rodada. Desde o título do Corinthians em 2011 sobre o Palmeiras ao Cruzeiro escapando do rebaixamento com uma sonora goleada por 6 a 1 sobre o Atlético Mineiro, no mesmo ano. No ano seguinte, o Náutico rebaixou o Sport, o Santos jogou a última pá de cal sobre um Palmeiras já despromovido e o Vasco avacalhou a festa do título do Fluminense, em pleno Maracanã. São momentos que ficam para sempre no imaginário dos torcedores. Um diferencial que só o futebol brasileiro tinha e que dava muito certo, mas foi interrompido a partir de 2013, graças à cartolagem. 

Dos vinte clubes da Série A daquele ano, 11 votaram pelo fim da rodada de clássicos e assim a aventura chegou ao fim. Agora, com as oitavas de final da Copa do Brasil, fica o recado para que o Brasileirão – e a cartolagem – se atente ao que realmente atrai o nosso público. Estádios lotados, jogos de alto nível e clima de decisão. A fórmula perfeita para uma grande noite de futebol brasileiro. Algo que hoje se restringe a uma causalidade da Copa do Brasil, mas poderia ser tradição no Brasileirão, bem como o tão aclamado Boxing Day, na Inglaterra, mas com a adição de clássicos, entrega de taças e definição de rebaixamentos. Não tem como dar errado. Já deu certo antes e daria ainda mais agora.

  • William Tales Silva, Jornalista. Repórter de esportes da TV Band Bahia. Autor do livro “[VAR] – A história e os impactos da maior mudança na aplicação das regras do futebol”, o primeiro sobre o árbitro de vídeo no Brasil, pela editora Footbooks/Corner. Já foi apresentador do Jogo Aberto da BandNews FM Salvador e teve oportunidades como apresentador do Jogo Aberto Bahia e comentarista da Série C do Brasileirão na TV Band Bahia.

Entre conspirações e acusações, a arbitragem brasileira definha

Na última terça-feira (5), Ituano e Cruzeiro se enfrentaram no Novelli Júnior e testemunharam um dos erros de arbitragem mais grotescos da era VAR. Quando o placar ainda estava zerado, aos 44 minutos do primeiro tempo, o Cruzeiro marcou com Edu, mas o gol foi anulado com auxílio do árbitro de vídeo, que errou drasticamente na aplicação das linhas. A imagem disponibilizada pela equipe de arbitragem evidencia o erro, que é mesmo incontestável.

Ainda assim, o técnico do Ituano, Mazola Júnior, se deu ao trabalho de discordar do fato. “Acho que nesse ponto o Ituano não foi favorecido e o Cruzeiro não foi prejudicado”, disse ele após a partida, comparando a jogada com um lance do Galo contra o Criciúma, quando Rafael Elias teve um gol anulado por um impedimento milimétrico, com as linhas do VAR praticamente sobrepostas.

A discussão sobre a capacidade do equipamento em averiguar estreitas irregularidades, como esta que foi citada por Mazola, é realmente necessária. Porém, esse erro – considerando que houve mesmo um equívoco – não pode ser comparado à marcação absurda que tirou o gol de Edu. A falha no lance contestado pelo treinador do Ituano teria origem em uma incapacidade tecnológica do VAR em cravar impedimentos muito ajustados. Já a situação desta semana parte de um erro humano completamente descabido – mesmo no precário contexto brasileiro, pois já utilizamos o árbitro de vídeo há cinco anos. Portanto, a comparação é incompatível e oportunista.

Mas os exageros não ficaram restritos ao time paulista. Do lado celeste, houve muita insinuação sobre “os verdadeiros motivos” por trás do erro. Para o técnico Paulo Pezzolano, não foi “um erro incompetente”. Quando acrescentou à sua queixa os amarelos dados à sua equipe, ainda disse acreditar que “não é sem querer” e que já se trata de “outra coisa”. O CEO do clube, Gabriel Lima, endossou o discurso conspiracionista: “é difícil acreditar que é só um erro técnico”, disse ele, em entrevista ao ge.

A verdade por trás desse lance está estampada na nossa cara há anos. Rodada após rodada. Não há mistério algum. A nossa arbitragem deixa – muito – a desejar. Para mudar isso, os clubes precisam se unir e pressionar a CBF em busca de alternativas para melhorar a formação e a reciclagem desses profissionais, que são muito mal amparados, protegidos e instruídos pela confederação e por suas respectivas federações estaduais.

A sequência dos fatos me assusta. O VAR sofreu para ser aprovado por aqui. Todo e qualquer erro grosseiro é visto como uma oportunidade para vitimização e insinuações sobre um suposto complô da arbitragem. Tudo para criar uma cortina de fumaça e esconder os verdadeiros problemas da equipe. E mesmo nos erros clamorosos nossos representantes não tem a hombridade de ir ao microfone e assumir: “houve um erro, fomos favorecidos, lamentamos que isso tenha acontecido”.

Todos olham apenas para o próprio umbigo, vendem narrativas para agradar o torcedor fanatizado e nunca atacam a raiz do problema. Afastar árbitros e enviá-los à “reciclagem” é a medida paliativa de um quebra-cabeça muito maior. Um erro de arbitragem muda carreira de jogador, de técnico e até a trajetória de um clube. Já passou da hora dos clubes pararem de fingir que isso não é da conta deles e realmente agirem em busca de uma solução a médio e longo prazo – visto que não há solução rápida e eficaz para um problema complexo como esse.

No entanto, a impressão que os clubes passam é a de que não há interesse em melhorar a arbitragem. Afinal, uma hora eles vão errar ao meu favor, né? Talvez seja este o pensamento, mas torço fervorosamente para que essa seja apenas uma conspiração sem fundamento da minha parte.

  • William Tales Silva, 24. Jornalista. Repórter de esportes da TV Band Bahia. Autor do livro “[VAR] – A história e os impactos da maior mudança na aplicação das regras do futebol”, o primeiro sobre o árbitro de vídeo no Brasil, pela editora Footbooks/Corner. Já foi apresentador do Jogo Aberto da BandNews FM Salvador e teve oportunidades como apresentador do Jogo Aberto Bahia e comentarista da Série C do Brasileirão na TV Band Bahia.
Foto: Cesar Greco / Palmeiras

O domínio brasileiro na América do Sul

Na noite desta quinta-feira foi concluída a “primeira perna” das oitavas de final da Libertadores e da Copa Sul-Americana, que serviu para destacar, mais uma vez, o domínio do Brasil no continente. No início da temporada sul-americana, 15 equipes brasileiras estavam divididas entre os dois principais torneios da Conmebol. Ao fim da fase de grupos, quatro delas deram adeus às disputas – Bragantino e América caíram na Libertadores e, na Sul-Americana, Cuiabá e Fluminense foram eliminados.

Com 11 representantes nas oitavas de final, o Brasil teve 57% de aproveitamento nesses jogos de ida. Foram cinco vitórias, quatro empates e apenas duas derrotas. Para efeito de comparação, essas mesmas duas derrotas foram registradas pelos brasileiros nos jogos de ida das oitavas dos dois torneios há dez anos, quando apenas sete equipes do país estavam no mata-mata.

Os cinco brasileiros que venceram nesse primeiro jogo das oitavas de final (Athletico-PR, Palmeiras, Flamengo, São Paulo e Ceará) já parecem ter encaminhado a classificação. Dentre os cinco, apenas o Furacão jogou dentro de casa e, justamente por isso, é o que menos dedos colocou na vaga até agora. 

Entre os quatro que empataram, podemos ressaltar a situação tranquila de Atlético Mineiro e Santos, que farão o jogo da volta em casa, contra adversários mais frágeis tecnicamente. Prováveis classificados. Já Corinthians e Fortaleza tem o que temer. O alvinegro precisa vencer o Boca Juniors em La Bombonera, onde apenas empatou na fase de grupos, enquanto o Leão do Pici tem que buscar o resultado na Argentina contra o Estudiantes.

As duas únicas derrotas vieram na Copa Sul-Americana, em jogos disputados fora de casa. O Atlético Goianiense perdeu por 2 a 0 para o Olimpia, no Paraguai, e tem uma tarefa árdua para o jogo da volta no Antônio Accioly. Cotado como favorito ao título, o Internacional foi o segundo derrotado, também por 2 a 0, contra o Colo Colo, no Chile. Um placar reversível no Beira Rio.

Dentre os onze brasileiros, apenas Fortaleza e Atlético Goianiense me passam insegurança o suficiente para apostar em uma eliminação. Corinthians e Internacional são plenamente capazes de reverter as situações complicadas em que se meteram, enquanto todos outros sete brasileiros entram como favoritos nos jogos de volta das oitavas de final.

Ou seja, das dezesseis equipes que irão compor as quartas de final da Libertadores e da Sul-Americana, pelo menos sete devem ser brasileiras. Em 2021, foram oito. Um número que pode ser facilmente repetido nesta temporada.

Um cenário que, olhando por nossa perspectiva, é digno de festa. Enfim, o futebol brasileiro conseguiu transformar seu maior potencial financeiro e técnico em resultados na América do Sul. Porém, em um cenário mais amplo, chega a ser entediante notar que a Libertadores e a Copa Sul-Americana se tornaram novas versões da Copa do Brasil, com uma ou outra equipe latina de penetra.

Os clubes brasileiros devem trabalhar para manter essa força, mas a Conmebol precisa, urgentemente, encontrar meios para trazer o futebol do continente a este mesmo nível competitivo. O futebol argentino ainda nos incomoda dentro de campo, mas escolas tradicionais como Colômbia e Uruguai já não suscitam preocupação – tampouco os outros países menos renomados no esporte.

Assim como em 2012, tudo indica que os troféus da Libertadores e da Sul-Americana virão para o Brasil. Mas, diferentemente do ano em que Corinthians e São Paulo mandaram no continente, essa dobradinha brasileira não causa mais espanto. Muito pelo contrário. Caminha para se tornar um hábito preocupante e, até o momento, sem solução à vista.

  • William Tales Silva, 24. Jornalista. Repórter de esportes da TV Band Bahia. Autor do livro “[VAR] – A história e os impactos da maior mudança na aplicação das regras do futebol”, o primeiro sobre o árbitro de vídeo no Brasil, pela editora Footbooks/Corner. Já foi apresentador do Jogo Aberto da BandNews FM Salvador e teve oportunidades como apresentador do Jogo Aberto Bahia e comentarista da Série C do Brasileirão na TV Band Bahia.
Foto: Lucas Figueiredo / CBF

Grupo G: como foram os adversários do Brasil nessa Data FIFA?

Ainda faltam cinco meses para a Copa do Mundo do Catar, mas a preparação das seleções já está na reta final. A Data FIFA encerrada nesta semana foi o penúltimo intervalo dedicado às seleções antes que elas se reúnam para o Mundial, em novembro. Embora o Brasil tenha feito apenas duas partidas, contra Coréia do Sul e Japão, vencendo ambas, essa janela internacional permitia quatro jogos e os países europeus aproveitaram esse encontro mais dilatado para dar o pontapé inicial para a Liga das Nações de 2022/23.

Começando pela Sérvia, que encara a seleção brasileira logo na estreia e disputa a “Série B” da Liga das Nações, sendo a única seleção classificada à Copa do Mundo na sua chave, ao lado de Eslovênia, Noruega e Suécia, e, por isso, favorita à promoção. No entanto, a águia conquistou apenas sete dos 12 pontos que disputou e amarga a vice-liderança do grupo, três pontos abaixo da Noruega.

Nessa Data FIFA, a Sérvia se destacou pelo controle de jogo, tendo mais posse de bola em todas as partidas – com média de 60%. Porém, é importante ressaltar que o nível de enfrentamento da Copa é diferente da “Série B” da Liga das Nações, então a Sérvia deve ter uma postura mais amena no Catar. Com esse domínio da bola, a equipe conseguiu uma eficácia ofensiva interessante, marcando um gol a cada 0,79 gols esperados*. Já a defesa não ajudou muito, levando um gol a cada 0,87 gols esperados.

É possível notar o equilíbrio da seleção sérvia, que não tem grandes estrelas, mas tem um coletivo bem encaixado, que pode impor dificuldades ao Brasil – ainda mais se considerarmos o nervosismo da estreia. Ouso dizer que só não estão na liderança de sua chave na Nations League porque o “Cometa” Haaland guardou cinco gols nesses quatro jogos e alavancou a Noruega ao primeiro lugar.

A Suíça, por sua vez, luta para não ser rebaixada no Grupo Dois, onde é lanterna, abaixo de Espanha, Portugal e República Tcheca. Com apenas uma vitória até aqui, o time foi econômico na criação, com apenas 4,04 gols esperados em quatro jogos e somente dois marcados. Ou seja, a equipe precisa produzir o suficiente para marcar dois gols para que realmente consiga fazer um. E isso é bem complicado para a seleção que teve o 4º menor número de finalizações certas da primeira divisão da Nations League, com apenas 11. A Suíça ainda é a seleção que menos dribla (7), segunda com mais perdas de bola (103) e sétima que menos troca passes certos (1301).

A defesa também vai mal. É a terceira mais vazada, com sete gols, mesmo tendo cedido oportunidades apenas para 5,13, gerando uma média preocupante de um gol sofrido a cada 0,73 gols esperados. Isso é ainda mais alarmante quando se nota que a Suíça é a seleção que mais sofreu finalizações certas (26) e a mais faltosa (28) da primeira divisão da Nations League. Tantos números negativos colocam a equipe como a dona da pior performance do campeonato até aqui, segundo o índice do site Footstats, que avalia o desempenho coletivo dos times.

Já a seleção de Camarões, assim como o Brasil, não aproveitou essa Data FIFA em sua totalidade. Estavam previstos dois jogos pelas eliminatórias da Copa Africana de Nações de 2023, mas a partida contra o Quênia foi cancelada e, por isso, os Leões jogaram apenas contra Burundi, vencendo por 1 a 0, com um gol de falta de Toko-Ekambi. Um repertório insuficiente para uma análise mais aprofundada sobre desempenho.

O Brasil segue como favorito na chave. Encarar o ferrolho japonês foi um importante teste e a seleção conseguiu a vitória, além de ter goleado uma Coréia do Sul fragilizada. De momento, a Sérvia parece oferecer mais perigo que a Suíça, mas a seleção da cruz vermelha ainda não deve ser descartada da briga pelo segundo lugar. Já Camarões aparece como “quarta força”, até pela dramática classificação à Copa, mas é capaz de arrancar pontos no Catar e tentar surpreender. Falta pouco tempo para ajustes. A Copa do Mundo é logo ali.

* A análise de Gols Esperados, também conhecida como xG, avalia a probabilidade de que determinada finalização resulte em gol. Para isso, são observados o local do chute, o tipo de ataque e do passe, além da parte do corpo responsável pela finalização.

  • William Tales Silva, 24. Jornalista. Repórter de esportes da TV Band Bahia. Autor do livro “[VAR] – A história e os impactos da maior mudança na aplicação das regras do futebol”, o primeiro sobre o árbitro de vídeo no Brasil, pela editora Footbooks/Corner. Já foi apresentador do Jogo Aberto da BandNews FM Salvador e teve oportunidades como apresentador do Jogo Aberto Bahia e comentarista da Série C do Brasileirão na TV Band Bahia.
Foto: ITV Football

Mbappé e o equilíbrio do futebol de seleções

A zebra estava solta nessa semana no futebol de seleções e gerou questionamentos sobre quais países são, de fato, favoritos ao título da Copa do Mundo. Mas, antes de ir direto ao assunto, desejo a todos boas-vindas. Esse é o primeiro texto da coluna Bom de Bola, um espaço para explorarmos diferentes vertentes do futebol. Desde os assuntos que passaram batido no noticiário da semana até os temas mais relevantes do momento, como essa data FIFA.

Após assinar um novo contrato com o PSG, o atacante Mbappé deu uma entrevista à TNT Sports e chamou atenção do público sul-americano ao afirmar que: “a Argentina e o Brasil não jogam partidas de muito nível antes da Copa do Mundo. Na América do Sul, o futebol não é tão avançado quanto na Europa. E é por isso que, quando você olha para as últimas Copas, são sempre os europeus que ganham”. Se analisarmos o depoimento friamente, o craque francês pode até não estar inteiramente equivocado, mas a soberba escondida nessa fala cobrou seu preço. Afinal, o futebol é tinhoso.

Como se fosse uma pegadinha do destino, o futebol europeu teve uma semana de tropeços inesperados. Apenas na Liga das Nações, sete zebras passearam. A Áustria, que está fora da Copa do Mundo, bateu a vice-campeã mundial Croácia por 3 a 0. A República Tcheca, também eliminada, derrotou a Suíça (rival do Brasil no grupo da Copa) por 2 a 1 e arrancou um empate por 2 a 2 contra a Espanha. A Sérvia (que encara o Brasil na estreia do mundial) foi derrotada em casa pela Noruega por 1 a 0. A Inglaterra, que aparece entre as favoritas ao título no Catar, perdeu por 1 a 0 para a Hungria, que também não vai à Copa. A Bélgica, que nos eliminou no mundial passado, foi amassada pela Holanda por 4 a 1. Sem contar a própria França de Mbappé, atual campeã da Copa e da Liga das Nações, que perdeu por 2 a 1 para a Dinamarca – confronto que vai se repetir na 2ª rodada do Grupo D da Copa.

Além disso, vale citar o atropelo da Argentina sobre a Itália na Finalíssima, a recém-criada supercopa entre os campeões da Copa América e da Eurocopa. Três a zero, fora o baile. Essa mesma Itália, que não vai ao Catar, ainda arrancou um empate da “sempre favorita” Alemanha na Liga das Nações. Já a Argentina encarou a Estônia em um amistoso e venceu por 5 a 0, com cinco gols de Messi, o que permite o questionamento sobre como estaria a artilharia histórica do futebol de seleções caso o ex-blaugrana tivesse encontros regulares com equipes deste patamar, que tanto engordaram a contagem de Cristiano Ronaldo, atual líder da estatística com folga.

Por um lado, esses jogos podem até reforçar o discurso de Mbappé, ao apontar o equilíbrio do futebol europeu, mas, sob outra perspectiva, expõem fragilidades de candidatos ao título mundial. Esses tropeços não descredenciam favoritos, mas o olhar europeu passa a impressão de que mesmo as vitórias sul-americanas sobre países de segunda e terceira prateleira geram esse efeito. Áustria, República Tcheca e Hungria não oferecem desafios maiores que Colômbia, Equador e Peru, mas o eurocentrismo, às vezes, nos impede de enxergar isso.

  • William Tales Silva, 24. Jornalista. Repórter de esportes da TV Band Bahia. Autor do livro “[VAR] – A história e os impactos da maior mudança na aplicação das regras do futebol”, o primeiro sobre o árbitro de vídeo no Brasil, pela editora Footbooks/Corner. Já foi apresentador do Jogo Aberto da BandNews FM Salvador e teve oportunidades como apresentador do Jogo Aberto Bahia e comentarista da Série C do Brasileirão na TV Band Bahia.