Foto: ITV Football

Mbappé e o equilíbrio do futebol de seleções

A zebra estava solta nessa semana no futebol de seleções e gerou questionamentos sobre quais países são, de fato, favoritos ao título da Copa do Mundo. Mas, antes de ir direto ao assunto, desejo a todos boas-vindas. Esse é o primeiro texto da coluna Bom de Bola, um espaço para explorarmos diferentes vertentes do futebol. Desde os assuntos que passaram batido no noticiário da semana até os temas mais relevantes do momento, como essa data FIFA.

Após assinar um novo contrato com o PSG, o atacante Mbappé deu uma entrevista à TNT Sports e chamou atenção do público sul-americano ao afirmar que: “a Argentina e o Brasil não jogam partidas de muito nível antes da Copa do Mundo. Na América do Sul, o futebol não é tão avançado quanto na Europa. E é por isso que, quando você olha para as últimas Copas, são sempre os europeus que ganham”. Se analisarmos o depoimento friamente, o craque francês pode até não estar inteiramente equivocado, mas a soberba escondida nessa fala cobrou seu preço. Afinal, o futebol é tinhoso.

Como se fosse uma pegadinha do destino, o futebol europeu teve uma semana de tropeços inesperados. Apenas na Liga das Nações, sete zebras passearam. A Áustria, que está fora da Copa do Mundo, bateu a vice-campeã mundial Croácia por 3 a 0. A República Tcheca, também eliminada, derrotou a Suíça (rival do Brasil no grupo da Copa) por 2 a 1 e arrancou um empate por 2 a 2 contra a Espanha. A Sérvia (que encara o Brasil na estreia do mundial) foi derrotada em casa pela Noruega por 1 a 0. A Inglaterra, que aparece entre as favoritas ao título no Catar, perdeu por 1 a 0 para a Hungria, que também não vai à Copa. A Bélgica, que nos eliminou no mundial passado, foi amassada pela Holanda por 4 a 1. Sem contar a própria França de Mbappé, atual campeã da Copa e da Liga das Nações, que perdeu por 2 a 1 para a Dinamarca – confronto que vai se repetir na 2ª rodada do Grupo D da Copa.

Além disso, vale citar o atropelo da Argentina sobre a Itália na Finalíssima, a recém-criada supercopa entre os campeões da Copa América e da Eurocopa. Três a zero, fora o baile. Essa mesma Itália, que não vai ao Catar, ainda arrancou um empate da “sempre favorita” Alemanha na Liga das Nações. Já a Argentina encarou a Estônia em um amistoso e venceu por 5 a 0, com cinco gols de Messi, o que permite o questionamento sobre como estaria a artilharia histórica do futebol de seleções caso o ex-blaugrana tivesse encontros regulares com equipes deste patamar, que tanto engordaram a contagem de Cristiano Ronaldo, atual líder da estatística com folga.

Por um lado, esses jogos podem até reforçar o discurso de Mbappé, ao apontar o equilíbrio do futebol europeu, mas, sob outra perspectiva, expõem fragilidades de candidatos ao título mundial. Esses tropeços não descredenciam favoritos, mas o olhar europeu passa a impressão de que mesmo as vitórias sul-americanas sobre países de segunda e terceira prateleira geram esse efeito. Áustria, República Tcheca e Hungria não oferecem desafios maiores que Colômbia, Equador e Peru, mas o eurocentrismo, às vezes, nos impede de enxergar isso.

  • William Tales Silva, 24. Jornalista. Repórter de esportes da TV Band Bahia. Autor do livro “[VAR] – A história e os impactos da maior mudança na aplicação das regras do futebol”, o primeiro sobre o árbitro de vídeo no Brasil, pela editora Footbooks/Corner. Já foi apresentador do Jogo Aberto da BandNews FM Salvador e teve oportunidades como apresentador do Jogo Aberto Bahia e comentarista da Série C do Brasileirão na TV Band Bahia.