Entre conspirações e acusações, a arbitragem brasileira definha

Na última terça-feira (5), Ituano e Cruzeiro se enfrentaram no Novelli Júnior e testemunharam um dos erros de arbitragem mais grotescos da era VAR. Quando o placar ainda estava zerado, aos 44 minutos do primeiro tempo, o Cruzeiro marcou com Edu, mas o gol foi anulado com auxílio do árbitro de vídeo, que errou drasticamente na aplicação das linhas. A imagem disponibilizada pela equipe de arbitragem evidencia o erro, que é mesmo incontestável.

Ainda assim, o técnico do Ituano, Mazola Júnior, se deu ao trabalho de discordar do fato. “Acho que nesse ponto o Ituano não foi favorecido e o Cruzeiro não foi prejudicado”, disse ele após a partida, comparando a jogada com um lance do Galo contra o Criciúma, quando Rafael Elias teve um gol anulado por um impedimento milimétrico, com as linhas do VAR praticamente sobrepostas.

A discussão sobre a capacidade do equipamento em averiguar estreitas irregularidades, como esta que foi citada por Mazola, é realmente necessária. Porém, esse erro – considerando que houve mesmo um equívoco – não pode ser comparado à marcação absurda que tirou o gol de Edu. A falha no lance contestado pelo treinador do Ituano teria origem em uma incapacidade tecnológica do VAR em cravar impedimentos muito ajustados. Já a situação desta semana parte de um erro humano completamente descabido – mesmo no precário contexto brasileiro, pois já utilizamos o árbitro de vídeo há cinco anos. Portanto, a comparação é incompatível e oportunista.

Mas os exageros não ficaram restritos ao time paulista. Do lado celeste, houve muita insinuação sobre “os verdadeiros motivos” por trás do erro. Para o técnico Paulo Pezzolano, não foi “um erro incompetente”. Quando acrescentou à sua queixa os amarelos dados à sua equipe, ainda disse acreditar que “não é sem querer” e que já se trata de “outra coisa”. O CEO do clube, Gabriel Lima, endossou o discurso conspiracionista: “é difícil acreditar que é só um erro técnico”, disse ele, em entrevista ao ge.

A verdade por trás desse lance está estampada na nossa cara há anos. Rodada após rodada. Não há mistério algum. A nossa arbitragem deixa – muito – a desejar. Para mudar isso, os clubes precisam se unir e pressionar a CBF em busca de alternativas para melhorar a formação e a reciclagem desses profissionais, que são muito mal amparados, protegidos e instruídos pela confederação e por suas respectivas federações estaduais.

A sequência dos fatos me assusta. O VAR sofreu para ser aprovado por aqui. Todo e qualquer erro grosseiro é visto como uma oportunidade para vitimização e insinuações sobre um suposto complô da arbitragem. Tudo para criar uma cortina de fumaça e esconder os verdadeiros problemas da equipe. E mesmo nos erros clamorosos nossos representantes não tem a hombridade de ir ao microfone e assumir: “houve um erro, fomos favorecidos, lamentamos que isso tenha acontecido”.

Todos olham apenas para o próprio umbigo, vendem narrativas para agradar o torcedor fanatizado e nunca atacam a raiz do problema. Afastar árbitros e enviá-los à “reciclagem” é a medida paliativa de um quebra-cabeça muito maior. Um erro de arbitragem muda carreira de jogador, de técnico e até a trajetória de um clube. Já passou da hora dos clubes pararem de fingir que isso não é da conta deles e realmente agirem em busca de uma solução a médio e longo prazo – visto que não há solução rápida e eficaz para um problema complexo como esse.

No entanto, a impressão que os clubes passam é a de que não há interesse em melhorar a arbitragem. Afinal, uma hora eles vão errar ao meu favor, né? Talvez seja este o pensamento, mas torço fervorosamente para que essa seja apenas uma conspiração sem fundamento da minha parte.

  • William Tales Silva, 24. Jornalista. Repórter de esportes da TV Band Bahia. Autor do livro “[VAR] – A história e os impactos da maior mudança na aplicação das regras do futebol”, o primeiro sobre o árbitro de vídeo no Brasil, pela editora Footbooks/Corner. Já foi apresentador do Jogo Aberto da BandNews FM Salvador e teve oportunidades como apresentador do Jogo Aberto Bahia e comentarista da Série C do Brasileirão na TV Band Bahia.